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Mineração, genealogia do desastre

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Autor: Horacio Machado Aráoz
Tradução: João Peres
Prefácio: Carlos Walter Porto-Gonçalves
Orelha: Charles Trocate
Edição: Tadeu Breda
Preparação: Letícia Féres
Capa & projeto gráfico: Bianca Oliveira
Lançamento: maio de 2020
Páginas: 324
Dimensões: 13 x 21 cm
ISBN: 978-85-93115-46-2

REF: 978-85-93115-46-2 Categorias: ,

Descrição

Neste livro, Horacio Machado Aráoz perverte a visão tradicional sobre a colonização da América e as origens do sistema capitalista, considerando a extração mineral realizada no século XVI em Potosí, na atual Bolívia, como a origem da modernidade — e dos eventos políticos, sociais e econômicos que nos trouxeram até aqui. “A primeira urbanização moderna não se deu em Manchester, mas em Potosí. O espírito do capitalismo não foi calvinista, mas católico. O protótipo desse espírito não foi Benjamin Franklin, mas Colombo, Cortés, Pizarro e outros aventureiros especialistas na arte da guerra. Com eles, e através deles, a modernidade se origina a partir de uma nova forma histórica de mineração, surgida do misterioso influxo que os metais preciosos começam a exercer sobre os corpos e as almas.”

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Esta obra não é um livro de história. É um ensaio histórico-sociológico que pretende colocar na mesa dos debates uma tese sobre o lugar e o papel da mineração moderno-colonial na posterior configuração do projeto civilizatório hegemônico, que dá forma à vida social contemporânea. Nossa tese afirma, de maneira simples, que a mineração moderno-colonial foi o detonante fundamental do Capitaloceno. Aqui se procura demonstrar como esse tipo histórico de exploração das “riquezas” minerais da Terra, nascido do empreendimento da invasão e da conquista colonial do “Novo Mundo”, desencadeou e motorizou toda uma série de grandes deslocamentos geológicos e antropológicos que desembocaram na grande crise ecológico-civilizatória que hoje paira sobre nossa Mãe Terra e, especificamente, sobre nossa comunidade biológica, os humanos. A invasão, conquista e colonização — primeiro, da América e, logo, do mundo inteiro — tiveram na sede pelo ouro a força motriz e o sentido-mor de sua existência, e na eficácia letal do chumbo e do ferro, o meio indispensável de sua realização. Essa perversa liga de metais — a violência a serviço da cobiça — é o que, em definitivo, desde o século XVI, forja as bases materiais e simbólicas do regime de dominação hegemônico moderno. […]

Desde que a primeira edição deste livro foi publicada, em 2013, uma grande quantidade de acontecimentos se deu no panorama da mineração transnacional na América Latina. Fatos não apenas importantes e graves, mas fatos no sentido de toda a densidade política que esse termo expressa. É o caso evidente do incomensurável crime massivo da Samarco no Vale do Rio Doce, no Brasil. E de crimes dirigidos a pessoas, como o assassinato de Berta Cáceres e a tentativa contra Gustavo Castro Soto, em Honduras; ou o assédio e a perseguição policial-judicial a Máxima Acuña, no Peru. Houve ainda mortos e feridos “ao acaso”, como nas violentas repressões das greves contra a mineradora Tintaya Marquiri, no Peru. Eu poderia mencionar os sucessivos vazamentos de milhões de litros de água cianetada pela Barrick Gold, em San Juan, no leste da Argentina; os quarenta mil litros de ácido sulfúrico nos rios Baranuchi e Sonora, no México; a contaminação dos mananciais que abastecem a população de Santo Antônio do Grama, em Minas Gerais, pela ruptura de um mineroduto da Anglo American; e tantos outros crimes contra a natureza que, no jargão mineiro, são apresentados como “acidentes”. […]

Assim, na atualidade como na origem, a mineração — a mineração colonial moderna — segue como a veia aberta mais lacerante e sangrenta, em nossa entidade histórico-geopolítica chamada de “América Latina”, mas também para além, em todo o Sul global. Esta história é uma história escrita por rastros cada vez maiores de sangue. Seus grandes feitos vão de massacre em massacre. Seus “avanços tecnológicos” são, na verdade, o aperfeiçoamento da arte da guerra, o uso eficaz da violência; o incremento na intensidade e na capacidade de controle, apropriação, extração e trituração das energias vitais, de montanhas, paisagens, corpos de água, biodiversidade.

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Não há lugar no planeta que não esteja ligado de modo mais ou menos direto ao sistema-mundo que se constituiu a partir de 1492. Não esqueçamos que a exploração mineral é a certidão de batismo do sistema-mundo capitalista moderno-colonial e seu Princípio Potosí, como bem caracterizou Horacio Machado Aráoz. Não há dúvida entre os historiadores de que a inundação de ouro e prata teve um papel decisivo no desenvolvimento comercial e no advento da sociedade capitalista propriamente dita. E, mais, de que a centralidade geopolítica e geoeconômica que a Europa passa a desempenhar só se tornou possível quando o mundo se des-orientou, isto é, quando o atual sistema-mundo se conformou, deixando de girar em torno do Oriente, depois que os turcos tomaram Constantinopla (1492) e novos caminhos para chegar ao Oriente se desenharam. Potosí, cidade localizada na atual Bolívia, chegou a reunir, ainda no século xvi, mais de sessenta mil indígenas extraindo prata e se alimentando à base de coca, antes planta sagrada, pois que tornava possível a vida no Altiplano andino. Essa foi a primeira guerra do ópio do sistema que se constituía. Desde então, a superexploração da natureza e do trabalho passou a constituir o lugar da América Profunda/Abya Yala no sistema centro-periferia que se conformou.

— Carlos Walter Porto-Gonçalves, no prefácio

 

Sobre o autor

Horacio Machado Aráoz é professor da Universidade Nacional de Catamarca, na Argentina, doutor em Ciências Humanas e pesquisador do Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais (Clacso).