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O Brasil tomou ácido

Livro mergulha na realidade brasileira dos anos 1960 e 1970 para entender como o LSD chegou ao país, como os médicos o estudaram, como os artistas receberam a nova substância e como as autoridades reagiram a seus efeitos

Em abril de 1943, Albert Hofmann pedalava na Suíça experimentando a primeira viagem de LSD. No final dos anos 1960, a contracultura no Brasil respondia à ditadura no ritmo da Tropicália — e chapada. Em setembro de 1970, era proferida a primeira sentença do país por tráfico de dietilamida do ácido lisérgico.

É por aí que se passa a História Social do LSD no Brasil, que traça essa jornada alucinógena desde os primeiros usos medicinais, passando pela influência social, cultural e artística no movimento hippie e suas derivações, aqui e lá fora, e chegando até o ambiente criminal diante de um icônico processo judicial.

E esse talvez seja o grande mérito da onda de Júlio Delmanto. Como o próprio autor diz no fechamento da introdução, a missão do livro é que o entrelaçamento das histórias ajude a compreender a chegada e a proibição do LSD no Brasil — e os antecedentes da política de drogas no Brasil, com toda sua carga moral.

Gringolândia

Passou a guerra, e os anos 1960 surgiam com a marca do fantasma da destruição nuclear, da racionalidade tecnocrata, do advento da juventude como setor social específico e da polarização entre os governos dos Estados Unidos e da União Soviética.

Surge então um movimento contracultural, primeiro nos isteites, onde ganham força ideias críticas tanto ao capitalismo e como ao comunismo, vistos igualmente pela ótica do autoritarismo e da repressão. O jovem quer ser livre, diferente de seus pais, e aqui não se trata apenas dos campos político e econômico.

É uma questão pessoal, de novas formas de se viver em comunidade, em família, além de transformar as maneiras de enxergar, por exemplo, sexo e trabalho. É a “sociedade alternativa” que cantou Raul Seixas, e o modus vivendi desse estilo de vida que recusa o American way of life e se reconhece hippie passa também pelas drogas psicotrópicas.

Brasil

No Brasil, as particularidades locais deram outro tom para esse movimento. Vários pesquisadores consideram que a contracultura se deu menos no ativismo político e mais na produção cultural, ainda assim marginalizada. E, além desse isolamento no ambiente das artes, havia outra questão: a ditadura iniciada em 1964 e acirrada em 1968, com o AI-5.

Com o inimigo claro, os jovens que se opunham ao regime autoritário se dividiram em três partes, como explica o ex-guerrilheiro Alfredo Sirkis. Uma parte foi para a luta armada, na clandestinidade; outra foi fundo na contracultura, hippies vivendo num universo à parte, em comunidades e com uso de drogas; e uma terceira acabou integrada ao sistema vigente, engolida pelos bons empregos e pela ascensão social.

É daí — dessa cisão entre militância política e vida alternativa — que vem a impressão de que a contracultura se estabeleceu com mais força na música e no teatro, na Tropicália e o cinema marginal. Esses movimentos trouxeram um modo de pensar no qual os psicotrópicos eram um elemento de experimentação estética e política, exposto nos artigos do Pasquim e nos festivais culturais pelo país.

A droga, o crime

O escritor Cláudio Willer contou a Júlio Delmanto, autor de História social do LSD no Brasil, que até por volta de 1965 ninguém conhecia LSD em São Paulo. Antonio Bivar concorda que poucos tinham experimentado o ácido até o meio daquela década. Mas, pouco adiante, o LSD chegaria às reuniões da juventude do país.

A hipótese do autor é que, assim como nos Estados Unidos, tudo começou pelas vias medicinais, nos anos 1950. Depois vem aquilo que se chama de tráfico, que parte do hábito, ou vício, na relação com o usuário e freguês. No início dos anos 1960, começaram a pipocar alguns relatos, como uma nota no jornal O Estado de S. Paulo, que informa sobre uma palestra do escritor Paulo Mendes Campos e do psiquiatra Murilo Pereira Gomes no Sindicato dos Médicos sobre a ação do LSD na mente humana.

Passados esses anos de cobertura midiática, trocas de experiências e trabalhos acadêmicos, vem a lei. Um jovem da classe média paulistana chamado Osmar Ludovico viajou para a Europa antes do golpe de 1964 e se aproximou da contracultura. Lá, vendia haxixe, quando foi preso em 1968 com treze quilos da droga. Na prisão, conheceu um australiano, Barry Holohan, e ambos tiveram uma ideia: vender LSD no Brasil para comprar cocaína, que seria revendida em território europeu.

O plano começou a rolar em São Paulo, e os filhos da elite da cidade se encantavam com o ácido. Isso era dezembro de 1969, janeiro de 1970, tempos de ditadura, AI-5 e a mais rígida lei de drogas da história do país. Não deu outra, e a polícia pegou o artista Antonio Peticov, amigo de Osmar, em flagrante. Na sequência, caiu todo mundo.

Essas sete pessoas — os primeiros réus processados e condenados por tráfico de LSD no país — revelam muito sobre a relação histórica da lei com a droga, inclusive sobre a postura da polícia (tortura).

Pelo simbolismo da operação, e também pela trajetória de cada um dos envolvidos, o caso acabou sendo uma fonte importante em História social do LSD no Brasil, ainda mais quando o autor descobriu que o responsável pelo julgamento do caso, o magistrado Geraldo Gomes, publicou um livro sobre o episódio.

Assim então se fecha o arco construído por Júlio Delmanto, como se colocasse o LSD sobre a mesa e o rodeasse com todos os aspectos possíveis para o debate: os científicos e os médicos, os sociais, os políticos e os culturais, e também os criminais e jurídicos.

Voltando à introdução, àquela em que o autor falava sobre a missão do livro, vale incluir agora a observação final do texto. “Se eu conseguir divertir e emocionar os leitores com as histórias que gostei tanto de conhecer e investigar, será perfeito.”

A gente aposta que sim.

 

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