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No espelho escuro da pandemia

Autor de No espelho do terror, publicado pela Elefante em 2018, reflete sobre o coronavírus e o isolamento social que a pandemia impôs sobre o planeta a partir das ideias de Guy Debord: seria a quarentena mais uma nova fase da sociedade do espetáculo?

Por Gabriel Ferreira Zacarias
Publicado originalmente em Cult

A sociedade que suprime a distância geográfica
recolhe internamente a distância, enquanto distância espetacular.
— Guy Debord, A sociedade do espetáculo, §167

Conversando com um amigo que mora em Bergamo — cidade no Norte da Itália onde estudei e que é hoje uma das mais afetadas pela epidemia do Coronavirus —, este me descreveu a situação como “um episódio infinito de Black mirror”. Com efeito, é difícil afastar a sensação de que estamos vivendo uma distopia, como essas representadas nas tantas séries do gênero. Black mirror, a mais famosa delas, carrega não à toa o termo “espelho” em seu título.

Seus episódios não representam um mundo distante — tempos longínquos, galáxias remotas, universos paralelos — mas simplesmente algo como um futuro próximo de datação incerta. Ao mesmo tempo estranhos e familiares, seus enredos se baseiam em recrudescimentos de tendências já presentes no quotidiano que vivemos. Talvez, o que passamos nesse momento possa ser compreendido da mesma forma. O descarrilho da normalidade parece anunciar um futuro próximo (já iniciado) ao mesmo tempo estranho e familiar. Podemos aprender algo sobre o mundo em que vivemos com esse “episódio infinito”?

Os momentos de crise ou excepcionais podem servir ao menos para compreendermos melhor, e criticamente, nossa normalidade habitual. Propus alhures que nos mirássemos no “espelho do terror”, como forma de melhor compreender a sociedade do capitalismo tardio que ensejara as novas formas de terrorismo. De maneira análoga, creio que caiba refletir sobre aquilo que encontramos de nosso presente na imagem que está se formando no espelho escuro da pandemia.

Há certamente muito a se pensar em diferentes planos — com relação à organização política, à reprodução econômica, à relação com a natureza ou os usos da ciência. Aqui, quero problematizar apenas uma questão: a ideia de “distanciamento social”, rapidamente aceita como norma, com a progressiva interdição dos encontros e a conformação de uma vida quotidiana em confinamento ao redor do globo. A situação pandêmica repousa sobre uma contradição que precisa ser sublinhada. A rápida expansão da doença resulta dos fluxos globais que unificaram as populações em escala planetária.

Do estado de pandemia nasce um paradoxo único de uma população global unificada em um mesmo estado de confinamento. Há, em suma, um isolamento concreto dos indivíduos em um mundo que está inteiramente conectado. Esse paradoxo não é um paradoxo exclusivo da pandemia, mas sim um paradoxo que a pandemia levou a seu extremo, tornando-o visível. Na verdade, a dialética entre separação e unificação (do separado) está na base do desenvolvimento do capitalismo ocidental que unificou o globo.

Guy Debord já havia notado essa contradição estruturante quando procurou compreender a fase “espetacular” do capitalismo, que se anunciava em meados do século passado. Aquilo que chamou de sociedade do espetáculo era uma forma de sociedade baseada no princípio da separação. O que foi comumente descrito como uma sociedade da comunicação de massa podia ser entendida inversamente como uma sociedade na qual a faculdade de comunicar era massivamente perdida.

A comunicação, em sentido forte, era o apanágio da vida comunitária, uma linguagem comum ensejada por uma vivência em comum. O que acontecia nas sociedades do capitalismo avançado era precisamente o contrário. A expansão no espaço — grandes cidades, subúrbios afastados, circulação econômica global — e a racionalização do trabalho, com a hiperespecialização das tarefas individuais, significaram o afastamento concreto entre as pessoas e a perda de entendimentos comuns, fator ainda acrescido pelo monopólio estatal sobre a organização da vida coletiva.

A perda progressiva da comunidade e de suas formas de comunicação eram, portanto, a pré-condição para o surgimento dos meios de comunicação de massa — os quais eram o contrário de meios de comunicação, uma vez que assentes no crescente isolamento real. A imagem de milhões de espectadores prostrados diante de aparelhos de televisão, que apenas consomem os mesmos conteúdos, mas em nada se comunicam, permanecia como figuração clara do fato de que, como escreveu Debord, “o espetáculo reúne o separado, mas apenas enquanto separado” (§29).

Para muitos, porém, essa figuração e a crítica que a acompanha teriam se tornado obsoletas no mundo atual, com o advento da internet e suas derivações. Em vez de espectadores prostrados passivamente diante de aparelhos televisivos, teríamos hoje espectadores ativos, trocando mensagens, produzindo e difundindo conteúdos. Mas a verdade é que nada nos últimos cinquenta anos colocou em questão a separação fundante que subjaz ao próprio avanço das tecnologias de comunicação. Bastaria como exemplo a cena tão corriqueira de uma mesa de restaurante no qual cada indivíduo olha para seu próprio telefone em vez de conversar. O separado é reunido como separado até no mesmo espaço físico.

O que nos foi subtraído agora, em meio à crise pandêmica, foi essa possibilidade de coabitar o espaço físico. Nas condições atuais, a interdição dos encontros e a obrigação do isolamento parecem mais fáceis de se impor à população global do que seria provavelmente uma interdição ou uma pane da internet e das redes sociais. Ironicamente, o “distanciamento social” é agora evocado como a grande salvação de uma sociedade que sempre esteve fundada no distanciamento.

O único lugar de encontro que existe na sociedade produtora de mercadorias é, na verdade, o mercado — é para lá que as mercadorias levam pelas mãos seus produtores e consumidores, e é por conta delas que os homens se encontram. É o tolhimento desses encontros, agora sendo interditados, que tanto espanta — o fechamento dos espaços de trabalho e de consumo.

Mas o capitalismo, que era uma relação social mediada por coisas, desdobrou-se em espetáculo, em relação social mediada por imagens. E já é possível estar nos espaços sem estar neles; é possível trabalhar (até certo ponto) e consumir (sem limites) sem a necessidade de sair de casa. A grande promessa reiterada pela publicidade de ter o mundo à mão graças a um simples toque na tela — tudo pode ser comprado e entregue em sua casa — não foi sempre a promessa de um confinamento voluntário?

Nesse sentido, o estado de exceção da pandemia parece ter realizado, ao menos em parte, o sonho do capitalismo. Se o episódio distópico que vivemos se revelasse mesmo um “episódio infinito”, não seria difícil imaginar uma população inteiramente acostumada às relações virtuais, ao confinamento regado a delivery e Netflix. As viagens seriam interditadas e restritas aos fluxos de mercadorias, agora frutos de um setor produtivo majoritariamente automatizado.

A luta do espetáculo para destruir a rua, o encontro e os espaços de diálogo — apenas da comunicação pode nascer uma alternativa à pseudocomunicação espetacular — estaria finalmente vencida. O espaço real pertenceria agora apenas às mercadorias; os seres humanos, confinados, refugiando-se na virtualidade. A circulação humana, “subproduto da circulação das mercadorias”, seria agora dispensável, em um mundo inteiramente entregue às “mercadorias e suas paixões” (A Sociedade do espetáculo, §168 e §66)

Isso é apenas um esforço imaginativo — um cenário, ainda, pouco provável, embora seja fácil antecipar um futuro com um acréscimo significativo no controle sobre os fluxos globais e a circulação de pessoas com base em argumentos sanitários, seguindo-se uma normalização de parte das medidas atuais de exceção (como vimos acontecer com relação ao terrorismo desde os ataques de 11 de setembro de 2001).

De toda forma, é sempre temerário fazer prognósticos em meio a tantas incertezas. Mas o momento requer reflexões e o que podemos fazer de melhor é pensar sobre aquilo que já conhecemos. Aquilo que talvez sintamos como menos problemático neste momento é o que talvez mais precise ser problematizado. Resta esperar que o distanciamento social se converta em distanciamento (Verfremdung) no sentido de Brecht — ruptura com a representação autonomizada da sociedade do espetáculo e suas ilusões (entre elas, a maior de todas: a da economia capitalista, reprodução insensata e incessante de valor abstrato em detrimento da vida).

Um distanciamento, portanto, dessa forma de sociedade: oportunidade necessária de repensar, criticamente, as separações que a fundam, e os limites profundos da vida quotidiana que o capitalismo tardio nos impõe.


Gabriel Zacarias é professor de história da arte na Unicamp e atualmente é pesquisador visitante da Universidade de Yale, nos Estados Unidos. É autor de No espelho do terror: jihad e espetáculo (Elefante, 2018).

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