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Keeanga-Yamahtta Taylor: ‘O Estado falhou com os negros’

A intelectual negra estadunidense escreve sobre os recentes protestos contra a violência policial em Minneapolis: 'Claro que há protestos: o colapso da política e da governança não deixa nenhuma outra opção'

Por Keeanga-Yamahtta Taylor
Publicado no The New York Times
Tradução: Tadeu Breda

 

A vida está voltando a algum tipo de normalidade nos Estados Unidos, e essa normalidade inclui inevitavelmente policiais matando negros rendidos e desarmados — fato imediatamente seguido por protestos nas ruas. Enfim, o país está retomando o ritmo familiar.

Desta vez é Minneapolis. Milhares de pessoas foram protestar contra a morte de George Floyd por um policial que pressionou o joelho em seu pescoço por sete minutos até sufocá-lo, enquanto ele estava no chão, algemado. Os pedidos de ajuda de Floyd — repetindo que ele não conseguia respirar, chamando por sua falecida mãe — foram ignorados. Os outros três policiais que assistiam à cena pareciam desinteressados na vida que violentamente se esvaía diante de uma multidão.

Autoridades eleitas de Minnesota denunciaram a brutalidade. Jacob Frey, prefeito da cidade de 430 mil habitantes, disse: “Ser negro nos Estados Unidos não deve ser uma sentença de morte”. Outros, incluindo a senadora Amy Klobuchar, que espera ser escolhida como companheira de chapa na candidatura democrata de Joe Biden à Casa Branca, expressaram uma série de reações públicas que se tornaram comuns: choque, horror, promessas de investigação e pedidos de calma. Em uma rara repreensão, os quatro policiais envolvidos no episódio foram demitidos.

Mas o fato de Floyd ter sido preso — e morto — pelo inconsequente “crime” de falsificação em meio a uma pandemia que tirou a vida de um em cada dois mil afro-estadunidenses é uma afirmação assustadora de que as vidas negras ainda não importam nos Estados Unidos.

É fácil entender a resposta dos manifestantes — não apenas negros — em Minneapolis. (Se você olhar de perto, centenas de brancos estão participando; as múltiplas injustiças que se entrecruzam neste caso também são aparentes para eles.) Nesta temporada de primavera, pelo menos 23 mil mortes relacionadas à covid-19 floresceram entre os afro-estadunidenses. O novo coronavírus abriu caminho através das comunidades negras, destacando e acelerando as desigualdades sociais arraigadas que os tornaram mais vulneráveis à doença.

Essa perda inacreditável de vidas ocorreu no auge das restrições e do distanciamento social. O que acontecerá quando o país reabrir totalmente, mesmo que o número de casos de covid-19 continue a crescer? Como a maioria dos funcionários públicos brancos tenta fazer as coisas voltarem ao normal o mais rápido possível, as discussões sobre as consequências devastadoras da pandemia para os negros acabam em segundo plano, como resultado de um “novo normal” com o qual teremos que conviver — ou graças ao qual iremos morrer. Se houve alguma dúvida sobre se os afro-estadunidenses pobres e da classe trabalhadora eram descartáveis, agora essa dúvida se dissipou. É claro que a violência do Estado não é apenas uma exclusividade da polícia.

Não são apenas as taxas mais altas de mortes que alimentam essa raiva: divulgaram-se casos em que os afro-estadunidenses tiveram seu acesso à assistência de saúde negado porque enfermeiros ou médicos não acreditavam nas queixas sobre seus sintomas. Da mesma forma, é enlouquecedora a suposição de que os afro-estadunidenses têm uma condição de saúde particularmente ruim e, portanto, são os únicos responsáveis por morrer em números desproporcionais.

Em vez de usar essa crise monumental para mudar as condições que alimentam a rápida taxa de mortes negras, os agentes armados do Estado continuam seu policiamento insignificante. Mesmo instruções aparentemente inócuas para o distanciamento social se tornam novas desculpas para a polícia perseguir afro-estadunidenses. Em Nova York, os negros representavam 93% das prisões relacionadas ao coronavírus. Existem disparidades raciais semelhantes em Chicago.

Em um momento em que os departamentos de polícia se comprometeram a prender menos pessoas para conter a propagação do vírus nas prisões locais, em nome da preservação da saúde pública, os afro-estadunidenses permanecem na mira. Afinal, por que a polícia estava prendendo George Floyd por falsificação, um “crime” de pobreza cometido sobretudo por trabalhadores desesperados e com baixos salários?

Quando manifestantes brancos, armados até os dentes em Michigan e em outros lugares, fazem ameaças contra funcionários eleitos, o presidente Donald Trump os elogia como “pessoas muito boas”, e eles são deixados em paz — certamente, não são sufocados até a morte na rua.

Por outro lado, depois que o governador de Minnesota ativou a Guarda Nacional na noite de quinta-feira (28/05), o presidente sugere que aqueles que protestam contra a brutalidade policial devem ser baleados. Os manifestantes em Minneapolis foram recebidos com gás lacrimogêneo e projéteis lançados por policiais, assim como muitos outros funcionários públicos que afirmam simpatizar com sua raiva.

Esses padrões duplos para lidar com brancos e negros fazem parte das maiores preocupações que afligem Minneapolis neste momento — e também porque o potencial para esse tipo de erupção social existe em todas as cidades dos Estados Unidos.

A raiva que explode nas ruas é muito mais profunda do que as hipocrisias óbvias observadas na disparidade com que são tratadas pelo Estado os manifestantes brancos conservadores e uma multidão multirracial de pessoas que se opõem à brutalidade da polícia. Nas últimas semanas, houve o assassinato de Ahmaud Arbery na Geórgia, a execução cruel de Breonna Taylor pela polícia de Louisville e o homicídio de Tony McDade, um homem negro trans, por policiais em Tallahassee.

Esses casos foram ignorados até que o clamor público forçou o país a prestar atenção, mesmo quando o público foi cativado pelas notícias que diziam para ficar em casa. Enquanto isso, há o caso altamente divulgado de uma mulher branca no Central Park, em Nova York, chamando a polícia contra um homem negro depois que ele pediu a ela que colocasse o cachorro na coleira. As possíveis consequências desse episódio foram esclarecidas pelo assassinato de George Floyd.

Mas o que também é inconfundível nos protestos amargos em Minneapolis e em todo o país é a sensação de que o Estado é cúmplice ou incapaz de efetuar mudanças substanciais.

Enquanto o candidato presidencial do Partido Democrata brinca que os afro-estadunidenses que não votam nele não são negros de verdade, a crise nas comunidades negras parece mais aguda e se sobrepõe a incidentes quase diários de violência policial — ou de alguma outra expressão opressiva do poder do Estado.

Foi uma piada Joe Biden ter pensado que, com aquela frase, mostraria seu status de insider com os eleitores negros. Em vez disso, apenas revelou sua arrogância ao supor que estava entre os afro-estadunidenses jovens ou da classe trabalhadora. Ele parecia qualquer outro político bem-sucedido que não conseguiu entender o tamanho dos desafios envolvendo o racismo estrutural nos Estados Unidos.

Esse colapso simultâneo de política e governança obrigou as pessoas a irem às ruas —em detrimento de sua saúde e da saúde de seus concidadãos — a exigir as necessidades mais básicas da vida, incluindo o direito de estar livre de assédio ou assassinato policial.

Quais são as alternativas para protestar quando o Estado não pode executar suas tarefas básicas, e quando policiais sem nenhum respeito pela lei raramente são repreendidos por crimes que resultariam em anos de prisão para cidadãos comuns? Se você não pode obter justiça pelos caminhos institucionais do sistema, deve procurar outros meios de alterá-lo. Isso não é um desejo; é uma premonição.

A convergência desses trágicos eventos — uma pandemia que mata desproporcionalmente os negros, o fracasso do Estado em proteger os negros e a caça de negros pela polícia — confirmou o que a maioria deles já sabe: se nós (e aqueles que estão conosco) não nos mobilizarmos em nossa própria defesa, nenhuma entidade oficial o fará. Os jovens negros devem suportar os ferimentos causadas por balas de borracha ou os efeitos do gás lacrimogêneo porque o governo nos abandonou. Vidas negras importam apenas porque nós faremos com que importem.

Isso não é novidade em nossa história. Após a Segunda Guerra Mundial, os afro-estadunidenses da cidade constataram as contradições de uma sociedade que colocou um homem na Lua, enquanto permitia que ratos de esgoto matassem crianças negras em seus berços à noite. O governo federal subscreveu as moradias precárias às quais os afro-estadunidenses foram enviados devido à segregação urbana. Para todos os lugares que os negros olhassem, o Estado não era apenas imune ao sofrimento, mas também um auxiliar dos crimes cometidos contra suas comunidades.

Essa foi a fonte dos levantes urbanos negros que assolaram as cidades do país na década de 1960, a mesma época do movimento pelos direitos civis no sul. O fracasso do Estado em entregar qualquer coisa que os afro-estadunidenses estavam exigindo deixou alternativas para centenas de milhares de negros: precisavam tomar as coisas em suas próprias mãos. Não importava, como não importa agora, se a sociedade branca aprovava ou desaprovava suas ações; o que importava era que, diante da falência dos mecanismos formais de mudança social, precisavam agir em seu próprio nome.

Seis anos atrás, os protestos em Ferguson, no estado do Missouri, prepararam o terreno para a ascensão do movimento Black Lives Matter [Vidas Negras Importam]. Era paradoxal que esse novo movimento surgisse à sombra do primeiro presidente negro do país e da presença de mais negros no Congresso do que em qualquer outro momento da história. E, no entanto, a acumulação desse poder político negro não conseguiu deter a brutalidade policial cotidiana, assim como não pôde impedir que os negros perdessem suas casas, que as desigualdades raciais se expandissem ou que jovens negros se endividassem em massa com empréstimos estudantis.

Não importava se as expectativas eram grandiosas demais para o que um presidente negro poderia realizar. O que importava era que, quando o governo falhou em fazer a diferença na vida das pessoas, os afro-estadunindeses protestaram para que a vida negra importasse.

 

Keeanga-Yamahtta Taylor é professora de estudos afro-estadunidenses na Universidade de Princeton, nos Estados Unidos, e autora de From #BlackLivesMatter to Black Liberation, que em breve será publicado no Brasil pela Elefante.

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