Os shows musicais virando verdadeiros tratados ao vivo na internet (como é que não faziam isso antes?). As manifestações contra o governo, apesar dos panelços na janela, replicando influenciadores digitais (não que isso seja exatamente novo).

Lives de educação, receita de bolo, dica de filme, política. Streaming com jogador de futebol, ex-presidente da República. Cursos e reuniões de profissionais em chamadas de áudio, exercícios físicos em ligações de vídeo. Estudos, trabalho e lazer reunidos num computador apoiado sobre a mesa, da hora que acorda ao momento de dormir.

Para muita gente, a vida on-line — da transferência bancária à paquera por aplicativo — já é uma realidade há anos. Para tantos outros, a quarentena é o que clareia o impacto dos relacionamentos à distância na vida contemporânea — alguém se lembra da ideia de entrar na internet?

“Não gosto do termo mundo virtual. Virtual implica um mundo que não é real, mas potencial, enquanto tudo que estamos vivendo é bem real, porém não material. O dinheiro na sua conta é imaterial, mas real. Não podemos separar o mundo assim, então chamo de dimensão imaterial e dimensão material.”

afirmação é do italiano Stefano Quintarelli, e vem de um ano e pouco atrás —naquela longínqua época distante da pandemia —, quando ele lançava no Brasil o livro Instruções para um futuro imaterial.

Com vasta experiência na área, Quintarelli usa sua vivência de pioneiro da internet na Europa para criticar os problemas causados pela rede em nossa vida e refletir sobre a transição que estamos vivendo. Como ilustra o trecho acima, o autor parte da ideia de que o mundo on-line não é virtual, mas sim imaterial.

Não há um ciberespaço em oposição ao espaço real, não há a vida que você toca e a vida imaginária. “Ao contrário, a tese básica desse livro é que a revolução digital abre caminho a uma dimensão cuja realidade não poderia ser maior: a dimensão imaterial, fundamental para os indivíduos, para a maneira com que se relacionam uns com os outros.”

 

Pandemia

Usemos o exemplo da política. Em tempos de debate aquecido, a pandemia provocou a interrupção de diversas atividades presenciais. E agora?

Quintarelli foi perguntado sobre a vida on-line (ou imaterial). Nessa entrevista de dias atrás ele pontua algumas questões. Por exemplo, o problema da segurança do voto parlamentar remoto, não só pela autenticidade do dispositivo, mas pela própria concretude: e se tiver uma pessoa apontando uma arma para a cabeça do deputado?

“Mas a parte da votação é a menos significativa, pois ratifica e consolida o que já foi feito. Grande parte do trabalho é falada, é de convencimento, e aí você vai e vota, mas é só a ponta do iceberg. A distância faz você perder essa percepção da pessoa, enquanto a presença faz você vê-la e, portanto, encontrar pontos de conciliação e mediação. É muito mais fácil fisicamente que remotamente, afinal somos animais.”

Ainda no tema da política e internet, nesse artigo de setembro de 2019 Quintarelli conta como “cem mil cidadãos digitais parecem estar sob o comando da nação”, a partir de um caso de mobilização política via plataforma digital na Itália. Está feito: política é rua e rede.

 

Internet demais

Quanto mais tempo em casa, mais perto você está de seus contatos com a comunicação on-line, seja pela televisão, computador ou celular.

Esse artigo do Nexo ouviu especialistas para falarem sobre o uso das redes sociais durante a pandemia. Isis Graziele da Silva, mestre em psicologia e vida digital pela USP, tratou da atenção sobre o quão saudável anda sua relação com o dedo correndo pela timeline.

“O mais importante neste momento é se observar muito seriamente e perceber qual oportunidade você tem abraçado nesses dias e como as redes sociais têm feito você se sentir. Se você não está se sentindo bem, é um alerta: hora de se relacionar com as redes de outra forma.”

Em outro aspecto distinto, a pandemia também desperta nas redes relações de afeto e geopolítica, atravessadas pelo imperialismo e racismo científico, como aponta esse artigo de André Keiji Kunigami no Intervozes.

“O mapeamento da internet feito pelo instituto de pesquisa Network Contagion Research Institute, divulgado no início de abril de 2020, detectou um notório aumento nos ‘sentimentos sinofóbicos e antiasiáticos’ no âmbito das redes sociais. Entre memes e postagens com teorias conspiratórias antiasiáticas, nota-se o alto uso de termos racistas contra chineses e asiáticos, demonstrando um aumento nos sentimentos de ódio contra essas populações.”

Enfim, a comunicação via internet está aí, e parece até antiquado usar determinados termos a essa altura. Retomando as ideias de Stefano Quintarelli, não deve haver motivo para pânico ou uma “luta contra as tecnologias”. O que há é a urgência para compreender a economia, o impacto social e as possibilidades de regulação.

Afinal, a essa altura já entramos na internet hoje, né.

Se é que saímos antes de dormir.