Como chegamos até aqui?

Por Fabio Luis Barbosa dos Santos
Autor de Além do PTCuba no século XXI

 

O que aconteceu? Como chegamos até aqui?

Esta indagação, presente no livro O eclipse do progressismo, mais precisamente na abertura do capítulo sobre a Bolívia, ronda a militância da Nossa América. É preciso enfrentá-la para que a história avance, em lugar de repetir-se como farsa. O primeiro passo é informar-se, para refletir. Pois, como dizia José Martí, “conhecer é resolver”.

Este livro é uma excelente contribuição nesta direção. Primeiro, porque recolhe textos de intelectuais que são militantes, e vice-versa. Portanto, é gente que tem uma vivência orgânica sobre o que fala. Os processos são analisados desde dentro, sem lugar para abstrações sobre o imperialismo ou para o discurso vitimizador da “reação da direita”, encobrindo corresponsabilidades. Embora alguns autores tenham servido em altos postos nestes governos, predomina o espírito crítico, mas nunca o rancor.

O resultado de O eclipse do progressismo é um conjunto de artigos reveladores sobre o progressismo, particularmente onde este subsiste: Bolívia, Equador, Venezuela, Nicarágua. Aos familiarizados com a crítica pela esquerda, o livro a atualiza. Por exemplo, Edgardo Lander elenca dados e fatos aterradores sobre a Venezuela de Nicolás Maduro. Sabendo que não há saída pela esquerda à vista, o autor deixa que as informações falem por si. É leitura obrigatória para quem deseja informar-se, como premissa para tomar uma posição.

Aos que ainda veem a onda progressista com lentes cor-de-rosa, o livro é um colírio necessário. Só a análise da realidade concreta nos salvará, ao mesmo tempo, da histeria da Rede Globo e de delírios à la Emir Sader ou García Linera.

Pablo Solón explicita, por meio de um ensaio franco e informado, como “a lógica do poder capturou o processo de mudança” na Bolívia. Alberto Acosta e John Cajas Guijarro apresentam, com riqueza de elementos, o processo por meio do qual o governo Correa forjou “um Estado que criminaliza e impõe sua ordem” no Equador.

O eclipse do progressismo inclui um excelente capítulo sobre a Nicarágua, uma situação menos conhecida entre os sul-americanos. Alejandro Bendaña apresenta uma análise devastadora sobre o sandinismo, travestido em orteguismo, imprescindível para entender os conflitos que explodiram recentemente no país.

Como toda coletânea, o livro é heterogêneo: há textos de diferentes tamanhos e enfoques. Emilio Taddei apresenta um panorama abrangente do governo Macri na Argentina, descrito como uma “virada neoliberal”. Entretanto, o kirchnerismo não é analisado, e ficamos sem entender porque a maioria dos senadores que apoiou o seu candidato, votou em seguida com Macri a favor dos fundos abutres.

Já a jovem Giovanna Roa revela, inclusive nas entrelinhas, os impasses da esquerda chilena: ao culpar os aliados pelo imobilismo do governo Bachelet, evidencia-se que, para que a esquerda possa renascer, ainda há contas a acertar com o Partido Socialista. Mas este é o único episódio de vitimização no livro.

O multifacetado texto de José Correa Leite abordando o Brasil faz uma avaliação destemida sobre “o PT e a construção de uma sociedade neoliberal”. Ao resgatar a trajetória do partido, para depois explorar seus governos à luz de temáticas como meio ambiente e gênero, o texto me parece particularmente instrutivo aos jovens. Importante, a reflexão reconhece a farsa do golpe, sem comprar o discurso de que era necessário para impor o projeto da direita — como se o PT fosse o oposto e não o complemento do vice golpista.

Finalmente, O eclipse do progressismo traz uma reflexão da uruguaia Lilian Celiberti sob a ótica do feminismo.

Da leitura de conjunto dos artigos, sobressaem alguns elementos. Todos os governos se apoiaram na exportação de matérias-primas, enfrentando necessariamente quem a isso se opôs. Crescimento e assistencialismo andaram de mãos dadas com cooptação e alienação, enquanto o vento das commodities soprou à favor.

Na economia política do progressismo, o poder converteu-se em um fim, derivando em práticas antidemocráticas onde ainda subsiste. No conjunto evidenciam-se, pela esquerda, os nexos entre o conteúdo cíclico da economia dependente e as formas repressivas da política que lhe corresponde, sustentando desigualdades e privilégios desde a Colônia.

Será preciso fazer muito e tudo diferente para que as coisas mudem. Não por gosto, mas por necessidade. Esperamos que o eclipse do progressismo seja, enfim, um ocaso. E, quando o movimento da história gravitar para a esquerda, tanto faz a revolução dos astros, desde que ilumine novamente a revolução na Terra.

Frei Henri continua vivo
na luta pela reforma agrária

Por Carolina Motoki

 

No acampamento Frei Henri des Roziers havia uma enorme castanheira. Aos seus pés, o frade dominicano que empresta nome à comunidade comemorou seu último aniversário no Brasil. Ali gostaria de ser enterrado. Um dia depois que as famílias acampadas receberam a notícia de que Henri havia morrido na França, no final de novembro passado, aos 87 anos, a castanheira tombou. Sobrevivente do desmatamento que transformou a floresta em capim, no sul-sudeste paraense, a árvore de tronco comprido e copa alta não sabe viver só.

Uma outra árvore frondosa Henri avistava pela janela do seu quarto no convento de Saint-Jacques, em Paris, onde passou seus últimos anos, cabeça sã, corpo quase imóvel. A árvore lhe indicava as estações do ano, tão marcadas na França. Seu amigo Didier Laurent escreveu que ela “era natureza viva, feito relógio de sol na parede da igreja, marcando o tempo longo e lento”. Dizia que a árvore cuidava dele.

Memorial em homenagem a Frei Henri construído em assentamento que leva seu nome, em Curionópolis (Foto: Idelma Santiago)

Estou no carro com Didier. De Marabá a Xinguara, onde Henri viveu mais da metade dos quase quarenta anos que passou no Brasil, quase não há mais castanheiras. Somos conduzidos por Frei Xavier Plassat, companheiro de Henri de origem, de fé e de batalhas travadas. Percorremos a estrada da região banhada de luta, conhecida pelos assentamentos e acampamentos de trabalhadores sem-terra, mas também pelos latifúndios sem fim.

Paramos onde houve banho de sangue: na curva do S, a juventude do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) se reunia para estudar, em memória ao massacre de Eldorado dos Carajás, ocorrido 22 anos antes. Paramos também no “acampamento de Henri” em Curionópolis, onde um mutirão terminava de construir a capela: no sábado, 14 de abril, as cinzas de Frei Henri seriam depositadas ali, atendendo a um pedido dele mesmo.

“Apaixonado por justiça”: o título do livro lançado em seu funeral resume bem a história desse frade dominicano, advogado da Comissão Pastoral da Terra (CPT), defensor de camponeses, trabalhadores sem-terra e daqueles que foram escravizados em busca de vida digna. Frei Henri era um obstáculo aos fazendeiros que pretendem se fazer donos do mundo e reis do gado a qualquer custo. E assim era, pois caminhava ao lado do povo.

Por conta disso, recebeu a homenagem do MST ainda vivo: o acampamento Frei Henri existe há oito anos. Marcada pela transitoriedade e pela incerteza, a vida das famílias acampadas é feita de respirar diariamente o conflito concreto, ora pelos tiros dos pistoleiros, ora pela dificuldade de se resistir de sol a sol. Nas mãos que secam o suor, a esperança é sedimento de superação da condição de pobreza, de superação da escravidão reiterada. É a transformação da fome em alimento. É a construção de uma nova possibilidade de vida, das plantações e paredes da escola à árdua tarefa de reaprender a conviver em comunidade.

Da castanheira que caiu após a morte de Henri, as famílias acampadas fizeram uma ponte, que hoje é caminho entre as moradias e as roças, antes separadas por um igarapé.

Sepultar ali, em um símbolo de eternidade, quem esteve boa parte da vida jurado de morte por fazendeiros e grileiros é como ocupar novamente o território, fincar a bandeira da reforma agrária, quando esta parece tremular cada vez menos no debate nacional. No ano passado, nem uma só família foi assentada no Brasil. Pelo menos 65 pessoas foram assassinadas em conflitos no campo.

Violência contínua

Na região, a disputa territorial não dá trégua. Os constantes ataques ao acampamento Frei Henri são marca disso. A terra, pertencente à União, foi retomada de um grileiro pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mas as famílias ainda não foram assentadas e continuam sofrendo ameaças e violências.

Os casos se multiplicam e compõem uma estatística doída, colocando o estado do Pará entre os campeões de mortes no campo. Em sua vida, Henri se empenhou pessoalmente no combate à impunidade dos mandantes de muitos desses assassinatos.

No ano passado, quando já estava de volta a Paris, doente, Henri soube do maior massacre dos últimos anos, ocorrido bem na região onde vivia: dez pessoas foram assassinadas por policiais militares e civis na fazenda Santa Lúcia, no município de Pau D’Arco. Mais uma morreu dias depois, aumentando o número para onze mortos.

Frei Xavier Plassat e o livro Apaixonado por justiça, sobre Frei Henri, traduzido por ele (Foto: Thomas Bauer)

Na semana das cerimônias do sepultamento de Henri, entre os dias 12 e 16 de abril de 2018, o cheiro de violência ainda pairava no ar: policiais civis envolvidos no massacre declararam, em audiências de instrução e julgamento, que foram coagidos por PMs a apertar o gatilho. Um policial descreveu como atirou em trabalhadores sem-terra já rendidos: um deles pediu para morrer em pé. Como as árvores.

Reunião de ódio

Os policiais civis também disseram no depoimento que pecuaristas fizeram uma “vaquinha” para pagar os envolvidos. Revestidos dos símbolos da modernidade de um agronegócio pujante e “pop”, os crimes perenes ao longo dos anos — além de assassinatos, grilagem de terras, degradação ambiental e trabalho escravo — mostram que são muitos os fazendeiros que não abrem mão da violência. Ainda assim, organizados, com ampla representação no Congresso e com força de incidir na disputa eleitoral, tentam mudar o estatuto do desarmamento para enfrentar, armados, a violência da qual se dizem vítimas.

Como narrado pelos policiais e denunciado por entidades ligadas aos trabalhadores rurais e à defesa dos direitos humanos, os fazendeiros da região são conhecidos pela ação em conjunto, os chamados “consórcios”. Teria sido tomada em “consórcio” a resolução de matar lideranças conhecidas, entre elas duas pessoas que trabalharam ao lado de Henri: o padre Josimo, morto nos anos 1980 por sua atuação no norte do estado do Tocantins, e a missionária Dorothy Stang, executada em 2005, no Pará.

O ódio que Josimo e Dorothy ainda suscitam entre grileiros e latifundiários não se esconde. Seus rostos estampavam o convite de um evento que aconteceria no Maranhão, na mesma semana do funeral de Henri, intitulado “Os falsos mártires da teologia da libertação”. Quando Dorothy foi executada, fogos de artifício foram ouvidos em Anapu, onde sofreu o atentado.

Fogos de artifício também foram ouvidos na mesma cidade para comemorar outro feito, neste ano: a prisão de padre Amaro, também da CPT, e apontado como um dos sucessores de Dorothy no apoio às famílias que lutam por um pedaço de chão. Em nota divulgada pela Federação da Agricultura e Pecuária do Pará (Faepa), a entidade patronal descreve as inúmeras denúncias protocoladas desde 2015 contra padre Amaro, assim como as “provas” apresentadas, sem receio de atacar de forma raivosa o religioso, a CPT, a própria irmã Dorothy e até o ex-ouvidor agrário nacional, Gercino da Silva Filho, classificados como incitadores das “invasões no campo”. Exemplo de expressões atribuídas a padre Amaro são “diatribes”, “embusteiro” e “subversivo”, reveladoras do ódio que fazendeiros manifestam contra os que denunciam seus crimes.

A assessoria jurídica da CPT produziu um documento que contesta as acusações contra Amaro que, dia após dia, denunciava irregularidades constatadas pelo Ministério Público Federal em visita recente a Anapu. Padre Amaro continua no presídio de Altamira. Por enquanto, os fazendeiros seguem vitoriosos.

O sonho possível

De quantas vidas é construída a memória de um lugar? De quantas mortes? Em que territórios se assentam sonhos em roças? Em quais deles se alongam as clareiras de gente, expulsas pelas cercas dos pastos sem fim, adubados pelo sangue derramado e pelo suor de quem foi explorado?

Fogos de artifício também foram ouvidos diversas vezes em Xinguara, quando fazendeiros achavam — erroneamente — que Henri havia morrido. Diz-se que um churrasco foi feito para comemorar sua morte, quando efetivamente ocorreu, na França. No acampamento, no dia em que as suas cinzas ocuparam a capelinha, não houve uma cerimônia de morte. Não se tratou de um enterro. Ao contrário, presenciamos uma celebração da vida.

“Frei Henri está presente, e a gente até sente o pulsar de seu coração”. Foi essa frase, repetida inúmeras vezes por quem estava no acampamento, que acompanhou as cinzas de Henri do palco onde aconteceu a celebração até o lugar onde hoje repousa, em “seu” acampamento.

Henri está presente, como nunca, na luta que segue, ainda necessária. Ali, mesmo pequenino, transformado em pó, ele reuniu muita gente em torno de um só sonho. Sob o céu do sul-sudeste paraense, encontraram-se muitas pessoas — vindas de diversos lugares — que acreditam que o campo deve ser um lugar onde é possível retomar a esperança e construir pontes a partir das árvores tombadas. Porque, definitivamente, elas não vivem sozinhas.

Elefante vs. Amazon

Se você está com a Editora Elefante há mais tempo, certamente já recebeu e-mails explicando como é importante para nós o gesto de pessoas que, como você, compram livros diretamente em nosso saite. Assim driblamos o pedágio das livrarias — sobretudo das grandes redes — e conseguimos valorizar cada um de nossos exemplares, o que possibilita o financiamento de novos títulos sem que leitores e leitoras paguem um centavo a mais por isso.

Com esta nova mensagem, pedimos licença para reforçar o argumento. O jornal duplamente golpista (1964 e 2016, não esqueçamos) Folha de S. Paulo publicou neste domingo, 15 de abril de 2018, em seu caderno “Ilustríssima”, o artigo “Contra a Amazon: razões para não gostar da gigante americana”, em que o escritor catalão Jorge Carrión elenca sete motivos para que não compremos livros neste hipermercado virtual globalizado e globalizante.

O texto reforça — e muito — o entendimento da Editora Elefante sobre a espinhosa questão da venda e distribuição de livros. Não, não somos contra a internet. Óbvio que não, né? Tampouco somos contra o comércio online. E muito menos contra as livrarias, sobretudo as pequenas. Quer prazer mais simples e delicioso do que passear por prateleiras, bater um papo com o livreiro (espécie em extinção), selecionar alguns títulos, pedir um café e demoradamente sentar-se em um sofá para folheá-los, escolhendo então essa boa companhia para dias chuvosos, pesquisas e fomes intelectuais em geral?

Devido à pequenez da Editora Elefante e à nossa incapacidade de entregar livros com a extrema agilidade que a pressa dos dias e das redes impõe a nossas vontades e desejos, temos enfrentado muitas queixas sobre a “demora” dos Correios em entregar os livros que vocês adquirem em nosso saite. Sim, lamentamos muito que essa empresa orgulhosamente pública, que foi um verdadeiro xodó dos brasileiros durante anos, esteja sendo submetida a um processo de sucateamento com vistas à privatização, com prejuízos a seus clientes: tanto aos remetentes (nós) quanto aos destinatários (vocês).

Nossa impossibilidade, minúsculos que somos, de atender imediatamente os pedidos de livros em nosso saite e o recente desleixo dos Correios podem alimentar desejos de encontrar formas mais ágeis de compra e envio. E aqui entra a Amazon, que promete entregar produtos em até uma hora depois da compra em mais de quarenta cidades do mundo — entre elas, Barcelona, de onde escreve Jorge Carrión. Mas, claro, isso tem um preço, um preço humano, que nós não temos condições nem vontade de pagar, nem de incentivar.

“Atualmente os ‘amazonians’ [trabalhadores da Amazon] são auxiliados por robôs Kiva, capazes de levantar 340 kg e de se mover na velocidade de 1,5 m por segundo. Sincronizados com os trabalhadores humanos através de um algoritmo, se ocupam de erguer e movimentar as estantes para facilitar a recolha dos produtos”, explica Carrión. “Uma vez reunidos os produtos que um cliente tenha comprado, outra máquina, chamada Slam, com sua enorme esteira, se encarrega de escaneá-los e embalá-los.”

Imaginem vocês nosso estarrecimento ao ficar sabendo disso. Nós, que somos duas pessoas na lida diária, que processamos os pedidos, empacotamos os livros e enviamos e-mails de agradecimento manualmente… “Para a Amazon, não existe diferença substancial entre patinhos de borracha, pacotes de bolachas, cachorrinhos de pelúcia e livros. São mercadorias de classe semelhante. Mas não para nós”, continua Carrión, ecoando nossa visão das coisas. “Para nós, um livro é um livro, é um livro. E a leitura dos livros — atenção e júbilo — é um ritual, o eco do eco do eco do que foi sagrado.”

Não iremos nos estender em citações. Vale a pena ler o artigo todo.

Queremos apenas reiterar a importância de vocês para a Editora Elefante. Cada livro que vocês compram diretamente conosco, ou cada livro nosso que vocês adquirem em pequenas livrarias — nas que estão resistindo ou nas que, contra todos os prognósticos, como as pequenas editoras, estão sendo corajosamente abertas nestes dias de ultraconectividade –, é uma ode à humanidade, às pequenas iniciativas literárias, ao cuidado não apenas com o objeto-livro mas com a ideia-livro. E também desconcentra renda.

Os preços e as condições de entrega da Amazon podem ser tentadores, mas é sempre bom saber o que existe por trás de cada desconto. Megacorporações que roubam seus dados, por exemplo, robotização indiscriminada, ritmos frenéticos de trabalho, empregados estressados. Por trás da Editora Elefante, em compensação, há uma rede de cabeças pensantes, profissionais talentosos, gente esforçada, pessoas imbuídas de uma paixão meio inexplicável por produzir livros bons, bonitos e baratos. E vocês, claro. Porque, sem querer parecer repetitivo, não seríamos nada sem vocês.

Continuem conosco, em manada.

Grande abraço,

Os paquidermes

O pensamento especulativo dos Guarani,
segundo Eduardo Viveiros de Castro

Em texto publicado no livro Povos indígenas do Brasil 2011-2016, lançado pelo Instituto Socioambiental em 2017, o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, professor do Museu Nacional do Rio de Janeiro, analisa o trabalho de outro antropólogo, Daniel Calazans Pierri, autor de O perecível e o imperecível: reflexões guarani mbya sobre a existência, que chega em abril pela coleção Fundo & Forma da Editora Elefante.

O texto de Viveiros de Castro versa sobre o “fim do mundo” sob a ótica dos Guarani, um dos pontos centrais do trabalho acadêmico de Pierri. Por que os Guarani? “Em primeiro lugar”, escreve, “porque os Guarani, hoje mais do que nunca, estão se tornando um símbolo concreto da ofensiva final em curso contra os povos indígenas brasileiros. O seu mundo […], o mundo de criação e destruição, está de fato, sendo destruído.”

Para Viveiros de Castro, “o fato é que, se alguma coisa nos interpela hoje, é a ligação entre a expressão ‘destruição do mundo’ e o etnônimo ‘Guarani’ — o que vemos acontecer hoje no Mato Grosso do Sul em particular”. E aqui abrimos espaço para o livro que lançamos em novembro de 2017, Do corpo ao pó: crônicas da territorialidade kaiowá e guarani nas adjacências da morte, de Bruno Martins Morais, que Viveiros não cita, mas que trata exatamente — e também — disso.

“O mundo deles está, de fato, acabando — ou melhor, sendo acabado — pelos brancos, escusado dizer. Por uma espécie muito particular de brancos. E é também um certo mundo, um certo Brasil que vai se acabando junto com esse mundo. Assim, escolho os Guarani para falar sobre destruição do mundo por eles serem hoje um símbolo particularmente pungente e ultrajante desse massacre físico, jurídico e político de que são alvo os povos indígenas.”

E aqui começam as referências ao trabalho de Daniel Calazans Pierri, que, diz o renomado antropólogo, “restaura os direitos especulativos [do] pensamento [guarani], contra a voga hipercriticista e ‘materialista’ que recusou qualquer tipo de fundamento religioso aos deslocamentos territoriais [desse povo], em nome de considerações ecológicas[, e] mostrou que a especulação cosmológica, escatológica e filosófica dos Guarani não é separável e menos ainda excludente de uma reflexão sobre as condições materiais de existência desses povos.”

E continua: “Essa oposição simplista que, na verdade, dominou nas últimas décadas um debate acadêmico entre os que defendiam a motivação puramente religiosa ou a motivação puramente material da busca da Terra sem Males é uma oposição insubsistente. O pensamento especulativo guarani, como todo pensamento especulativo, é necessariamente correlacionado a determinadas condições materiais de existência. Mas uma reflexão não é um reflexo. Esse pensamento é uma reflexão filosófica feita a partir das condições históricas de opressão e de dominação que os povos guarani sofreram ao longo de cinco séculos.”

Nos três capítulos de O perecível e o imperecível, Pierri descreve e analisa as visões de mundo coletadas junto após longas conversas e anos de pesquisas junto aos Guarani Mbya em aldeias do Sul e Sudeste do país. A maioria das entrevistas é apresentada em versão bilíngue: português e guarani. No livro, o leitor poderá conhecer mais sobre como os Mbya enxergam a criação do mundo dos índios e do mundo dos brancos, além de sua interpretação sobre a vinda de Jesus, filho de Tupã, morto pelos brancos — que por isso, como castigo, vivem em um mundo onde tudo é perecível, estraga.

Uma vida dedicada à reforma agrária e ao combate do trabalho escravo

Sabemos da extrema violência que acomete os camponeses que lutam pela terra nas paragens mais distantes dos grandes centros urbanos brasileiros, sobretudo na região amazônica. Mas existe pouquíssima informação disponível sobre as pessoas que levam consigo a bandeira da reforma agrária — e menos ainda sobre as dificuldades e alegrias que colhem na aridez cotidiana de ameaças, mobilizações e decisões judiciais.

Eis uma das principais contribuições do livro Apaixonado por justiça: conversas com Sabine Rousseau e outros escritos, de Henri Burin des Roziers, publicado pela Editora Elefante em parceria com a Comissão Pastoral da Terra e a Comissão Dominicana de Justiça e Paz no Brasil. Conhecido no país como Frei Henri, o religioso francês chegou ao Bico do Papagaio, região entre Tocantins, Pará e Maranhão, e reconhecida pelos índices de violência no campo, nos anos 1980. Antes, na França, havia participado ativamente do Maio de 1968 e de lutas sindicais.

Formado em Direito em Paris, Frei Henri começou a atuar como advogado dos camponeses que lutavam pela terra na região. Viu amigos e companheiros serem perseguidos e brutalmente assassinados, como Gabriel Pimenta, jovem advogado da CPT, e Paulo Fonteles, deputado estadual paraense. O próprio Henri foi alvo de inúmeras ameaças de morte, e viu sua cabeça valer milhares de reais na mesma época em que pistoleiros acabaram com a vida da irmã norte-americana Dorothy Stang em Anapu, no Pará, em 2005.

Apaixonado por justiça está dividido em três partes. A primeira consiste em uma longa entrevista, no formato de perguntas e respostas, concedida por Frei Henri à historiadora Sabine Rousseau. A segunda parte traz textos do próprio religioso. Na terceira é possível conhecer a repercussão ocorrida no Brasil e na França pela morte de Frei Henri, que faleceu em Paris em novembro de 2017 devido a complicações de uma miopatia congênita.

“Esse homem magro, de fala mansa e andar compassado, tornou-se referência no acolhimento de vítimas do combate ao trabalho escravo e na denúncia desse crime à Justiça e ao mundo. Mas também se tornou um dos principais atores na luta pela reforma agrária, contra a impunidade dos ricos detentores de terras e pelo fim das arbitrariedades policiais”, escreveu Leonardo Sakamoto em seu blogue por ocasião da morte do frade francês.

“O falecimento de Henri por causas naturais, e não provocada por algum dos muitos que queriam sua morte, foi uma vitória, apesar de trazer um vazio a todos seus amigos — grupo ao qual, orgulhosamente, me incluo”, continua o jornalista. “Pois nenhuma das várias ameaças que recebeu e nenhuma das tentativas de assassinato que sofreu conseguiram impedir seu trabalho.”

A origem dos brancos, o mundo celeste dos Guarani e Jesus, filho de Tupã

Na terça-feira, 17 de abril, a Editora Elefante lança O perecível e o imperecível: reflexões guarani mbya sobre a existência, de Daniel Calazans Pierri, segundo título da coleção Fundo & Forma, que publica obras contemporâneas de antropologia. Na ocasião, o autor debaterá sua obra com Jera Poty Miri e Tiago Karai, lideranças indígenas da cidade de São Paulo. O bate-papo contará ainda com a presença de Dominique Tilkin Gallois, professora do Departamento de Antropologia da USP.

Em três capítulos, Pierri descreve e analisa as visões de mundo coletadas junto após longas conversas e anos de pesquisas junto aos Guarani Mbya em aldeias do Sul e Sudeste do país. A maioria das entrevistas são apresentadas em versão bilíngue português e guarani. No livro, o leitor poderá conhecer mais sobre como os mbya enxergam a criação do mundo dos índios e do mundo dos brancos, além de sua interpretação sobre a vinda de Jesus, filho de Tupã.

O perecível e o imperecível é resultado de pesquisa que ‘finalizei’ em 2013, e tive com essa publicação a intenção de valorizar o pensamento filosófico dos anciãos e anciãs guarani com quem tenho convivido, além de apresentar um ponto de vista sobre o mundo guarani que permita trazer mais empatia e respeito por parte dos jurua, os não indígenas”, explica Daniel Calazans Pierri.

“Considero especialmente relevante no livro as transcrições de conversas que tive com esses pensadores e pensadoras guarani mbya, e que traduzi junto com meu amigo Werá Alexandre: são reflexões sobre nossa existência nessa terra perecível que vivemos; sobre os guarani, as divindades e seus belos modos de existência; e sobre os jurua e seu avassalador modo de vida capitalista, inaugurado quando os próprios jurua decidiram assassinar o filho de Tupã, que veio a terra para ensiná-los”, complementa o autor.

“Daniel Pierri, em trabalhos recentes, restaura os direitos especulativos do pensamento guarani contra a voga hipercriticista e ‘materialista’ que recusou qualquer tipo de fundamento religioso aos deslocamentos territoriais dos Guarani em nome de considerações ecológicas”, afirma o antropólogo Eduardo Viveiros de Castro, do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

“Pierri mostrou que a especulação cosmológica, escatológica e filosófica dos Guarani não é separável e menos ainda excludente de uma reflexão sobre as condições materiais de existência desses povos”, continua. “Mas uma reflexão não é um reflexo. Esse pensamento é uma reflexão filosófica feita a partir das condições históricas de opressão e de dominação que os povos guarani sofreram ao longo de cinco séculos.”

 

Lançamento

Terça-feira, 17 de abril, às 19h
Ateliê do Bixiga
Rua Conselheiro Ramalho, 945, Bela Vista, São Paulo-SP
Próximo às estações de metrô Brigadeiro e São Joaquim
Debate com
Jera Poty Miri, liderança guarani mbya
Daniel Pierri, autor
Dominique Tilkin Gallois, professora USP
Tiago Karai, liderança guarani mbya
Entrada franca!

Livro analisa ‘ciclo progressista’ e aponta caminhos para a esquerda latino-americana

A América Latina atravessa atualmente um período de impasse e turbulência, em parte pela dinâmica interna de seus países, mas também como consequência de sua forma particular de inserção no mercado mundial. Para refletir sobre essas questões, o livro O eclipse do progressismo: a esquerda latino-americana em debate reúne oito artigos de diversos autores, como Alberto Acosta, Edgardo Lander e Pablo Solón, com o objetivo de pensar criticamente a conjuntura que atravessa o continente e seus países, além das perspectivas políticas da região. A publicação será lançada em São Paulo na segunda-feira, 12 de março, às 17h, e em Salvador, durante o Fórum Social Mundial, em 15 de março.

Tais artigos surgiram a partir de apresentações realizadas no seminário “A América Latina hoje: uma avaliação crítica sobre a esquerda e os governos progressistas”, que ocorreu durante o Fórum Social Mundial de 2016, em Montreal, e que teve continuidade em Porto Alegre, durante o Fórum Social das Resistências, em janeiro de 2017.

ENCOMENDE SEU EXEMPLAR

O livro aborda e analisa o ciclo de governos progressistas na região, que chegaram à frente de seus Estados entre 1999 e 2008 a partir das lutas populares anteriores contra as políticas de ajuste fiscal. As economias cresceram e garantiram recursos para importantes políticas distributivas, integrando parcelas da população, antes excluídas, aos mercados de consumo.

“A estratégia aplicada foi, de conjunto, correta e os problemas foram mais localizados ou, ao contrário, tratou-se de uma estratégia equivocada? Quais são os pontos de apoio para as lutas de resistência contra a aplicação de políticas ultraliberais que a direita está tentando aplicar? Quais alternativas propomos? Como combinar as lutas de resistência em curso e a experimentação dessas alternativas?”.

Esses são alguns dos questionamentos que direcionam as análises da publicação. Os autores acreditam que com os efeitos da crise global de 2008, o crescimento do nacionalismo xenófobo e do pensamento conservador, a esquerda latino-americana vive um período de recomposição, em que o balanço da experiência dos governos progressistas ocupa um lugar central.

O evento de lançamento questiona o Fórum Econômico Mundial para a América Latina (WEF), também conhecido como Mini Davos, que será realizado este ano na cidade de São Paulo, entre os dias 13 e 15 de março, e o livro é uma publicação da Editora Elefante, com o apoio da Ação Educativa.

Serviço

Lançamentos do livro O eclipse do progressismo

São Paulo
Data: 12/03, a partir das 17h
Local: Auditório da reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) – R. Sena Madureira, 1500, Vila Clementino, São Paulo/SP.

Salvador
Data: 15/03, a partir das 17h
Local: Fórum Social Mundial, Salvador/BA.

Conheça os autores:

José Correa Leite – paulista, é professor universitário com doutorado pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (2005) e pós-doutorado pela Faculdade de Filosofia Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (2015). Foi editor do jornal Em Tempo e organizou, com Isabel Loureiro e Maria Elisa Cevasco, o livro O espírito de Porto Alegre.

Emilio Horacio Taddei – portenho, é professor da Universidade de Buenos Aires, com mestrado e doutorado pelo Instituto de Estudos Políticos de Paris da Fondation Nationale de Sciences Politiques. Foi coordenador acadêmico da CLACSO (Conselho Latino-Americano de Ciências Sociais) e organizou, com José Seoane, o livro Resistencias mundiales: de Seattle a Porto Alegre.

Giovanna Roa – ativista chilena, comunicadora e colaboradora em projetos culturais e políticos, públicos e privados. Designer e co-diretora do festival feminista Ruidosa. Foi vice-presidente da Federação Estudantil da Universidade Católica em 2010 e diretora criativa em campanhas políticas.

Lilian Celiberti – é professora e feminista uruguaia. Começou sua militância no centro dos professores estudantis e foi prisioneira política da ditadura militar em seu país aos 21 anos. É coordenadora da Cotidiano Mujer e participa da Articulação Feminista Marcosur(AFM), promovendo o desenvolvimento de um campo político feminista a nível regional e mundial.

Alberto Acosta – economista e político equatoriano. Professor da FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais, foi um dos redatores do plano do governo da Aliança PAIS – Pátria Altiva e Soberana. Foi ministro da Energia e Minas e Presidente da Assembleia Nacional Constituinte.

John Cajas Guijarro – economista equatoriano graduado da Escola Politécnica Nacional. Tem mestrado em Economia do Desenvolvimento pela FLACSO – Faculdade Latino Americana de Ciências Sociais. É professor de Economia Política da Universidade Central do Equador e da Escola Politécnica Nacional do Equador.

Alejandro Bendaña – fundador do Centro de Estudos Internacionais em Manágua, Nicarágua. Possui um Ph.D. em História pela Universidade de Harvard. Autor de vários livros sobre relações internacionais e reconstrução pós-guerra, atuou como consultor do Programa UNESCO de Cultura da Paz

Pablo Solón – diretor da Fundação Solón, o político boliviano é ex-diretor executivo do Focus on the Global South, grupo de pesquisa ativista, e ex-embaixador do Estado Plurinacional da Bolívia nas Nações Unidas (ONU). Lidera o Observatório Boliviano de Mudanças Climáticas e Desenvolvimento.

Edgardo Lander – professor e pesquisador venezuelano do Departamento de Estudos Latino-Americanos da Escola de Sociologia, é consultor da comissão venezuelana que negocia a Área de Livre Comércio das Américas. Trabalha na Faculdade de Ciências Econômicas e Sociais e é membro do Conselho Editorial da Revista Venezuelana de Economia e Ciências Sociais da Universidade Central da Venezuela.

De Maio lança HQ Raul com exposição
sobre jornalismo em quadrinhos em SP

Na quinta-feira, 15 de março, às 19h, o jornalista e quadrinista paulistano Alexandre De Maio lança na Matilha Cultural seu primeiro livro solo, Raul, uma reportagem em HQ sobre o rapper Rafa (nome fictício), que se debateu entre o sucesso e o crime nos anos 2000 e — após ser preso, virar notícia e ver sua carreira artística desabar — está foragido da justiça.

A obra sai pela Editora Elefante, que publica o quarto título do selo Elefante em Quadrinhos. No lançamento de Raul também será inaugurada a primeira exposição sobre jornalismo em quadrinhos do país, que ficará aberta ao público até dia 31 de março, com desenhos de De Maio, Carolina Ito, Robson Vilalba e Helô D’Angelo.

COMPRE COM FRETE GRÁTIS!

“Queria fazer uma HQ que contasse uma história real e que abordasse um tema que ainda não tivesse sido explorado”, afirma De Maio, explicando as motivações que o levaram a escrever e desenhar Raul — alcunha pela qual são conhecidos os criminosos que se dedicam a aplicar golpes de cartão de crédito. “Esse livro é uma entrevista com um personagem de São Paulo que vive de um crime invisível. Raul mostra a trajetória desse cara, que durante um tempo foi rapper e fez algum sucesso, mas que hoje vive do crime e nos conta como funcionam os golpes e as técnicas usadas pelos ‘rauls’.”

Alexandre De Maio já publicou os livros de ficção em quadrinhos Os inimigos não mandam flores (2006) e Desterro (2013), ambos em parceria com o escritor Ferréz, e ilustrou Génération favela, de Marie Naudascher e Héléne Seingier, lançado na França em 2016. De Maio também é co-autor da reportagem em HQ Meninas em jogo (2014) com a jornalista Andrea Dip, da Agência Pública, sobre turismo sexual em Fortaleza. O trabalho foi finalista do prestigiado Prêmio Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano em 2015.

Além da venda de livros e da exposição, a noite de lançamento na Matilha Cultural contará ainda com um debate sobre “Realidade, Quadrinhos e Jornalismo”, que abordará o processo criativo das HQ documentais com a participação do autor de Raul, Alexandre De Maio, do escritor Ferréz e da rapper Luana Hansen — que, após o bate-papo, fará um pocket show. Depois da sessão de autógrafos, haverá também discotecagem com a DJ Ge. A entrada é franca.

 

LIVRO
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Raul é uma reportagem em quadrinhos sobre um golpista e fraudador bancário que se transformou em rapper, gravou disco, começou a fazer sucesso e deixou o crime. Mas reviravoltas na carreira — e a necessidade de arcar com os custos da indústria fonográfica — fizeram com que tudo desse errado. Ao longo da narrativa, Rafa (nome fictício) explica como faz para ganhar a vida enganando clientes de banco e esvaziando suas contas bancárias por meio dos caixas eletrônicos. Em seu primeiro livro solo, De Maio lança seu olhar sobre a trajetória do ex-rapper para revelar uma das modalidades mais rentáveis do crime — os golpes com cartão de banco — e abordar o drama de quem esteve prestes a viver do próprio sonho.

 

EXPOSIÇÃO
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A primeira exposição de jornalismo em quadrinhos do país terá quarenta telas, a maioria delas assinada por Alexandre De Maio, como a HQ produzida em comemoração aos 100 anos do samba, em 2017. “O visitante consegue passear pela exposição e ler essa HQ em 23 telas grandes”, diz. “Haverá dez telas do livro Génération favela e uma tela de computador com HQs online.” De Maio explica que selecionou ainda dois prints de jornais do século XV para mostrar que já existia jornalismo em quadrinhos daquela época. “O quadrinho nasceu fazendo jornalismo.” A exposição conta ainda com trabalhos de Carolina Ito, da Revista TPM; Helô D’Angelo, da Revista Cult; e Robson Vilalba, vencedor do Prêmio Vladimir Herzog em 2014 e autor do livro Notas de um tempo silenciado (2015).

 

SERVIÇO
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Lançamento do livro Raul
Abertura da exposição “Jornalismo em Quadrinhos”
Quinta-feira, 15/03, às 19h
Matilha Cultural
Rua Rêgo Freitas, 542, República, São Paulo-SP
Debate “Realidade, Quadrinhos e Jornalismo”
Pocket show com Luana Hansen
Discotecagem de DJ Ge
Entrada franca

Obrigado por terem caminhado
com os elefantes em 2017

Queridx leitorx,

Mais um ano passou — e que ano: 2017, assim como 2016, foi um ano de muita desgraça no noticiário, mas, também por isso, de muito trabalho para a Editora Elefante: doze meses de ralação intensa, noites mal-dormidas e uma luta incessante contra preços e prazos para produzir livros que talvez não tenham grande apelo comercial, mas cuja importância social, cultural e política é induscutível.

O resultado foram nove novos títulos publicados entre fevereiro e dezembro, além de cinco reimpressões. E isso sem investidores, sem funcionários. Tantos livros nos trouxeram muitos leitores e leitoras, como você, que confiou em uma editora microminúscula e comprou um ou mais de nossos exemplares pela internet. Agradecemos demais a confiança. Isso mostra que todo nosso esforço está valendo a pena.

Começamos 2017 com Desterros, de Natalia Timerman, que trouxe uma série de relatos do hospital-prisão onde trabalha como psiquiatra — e que emocionou tanta gente com a história de Donamingo. Depois veio Cooperativismo de plataforma, de Trebor Scholz, lançado em parceria com a Autonomia Literária, que nos colocou no debate sobre Uber, Airbnb e demais baluartes da economia do compartilhamento.

Nossa contribuição nessa área teve continuidade, em outubro, com a publicação de Uberização: a nova onda do trabalho precarizado, de Tom Slee, que chegou à tribuna do Senado Federal, qualificou o debate legislativo e ajudou a fundamentar um projeto de lei sobre a regulamentação dos aplicativos no país. Em 2018, queremos trazer o autor para uma série de conferências no Brasil. Aguarde as novidades.

Em julho, mais de seiscentas pessoas assistiram aos eventos com Silvia Federici em São Paulo e Rio de Janeiro. A feminista italiana veio ao país para o lançamento de Calibã e a bruxa, que publicamos em parceria com o Coletivo Sycorax e com o apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

Se você está recebendo esta carta pela primeira vez, é muito provável que tenha chegado até a Editora Elefante graças ao livro da Silvia — que ficou lindo, né não? Apesar de tratar da onda de perseguição às mulheres durante a transição do feudalismo para o capitalismo, na Europa, e durante a Conquista da América, as teses de Calibã e a bruxa são demonstradas todos os dias, ainda hoje, no Brasil e no mundo, em cada ato de violência doméstica e feminicídio.

Em novembro, pudemos constatá-las quase que literalmente quando manifestantes de extrema-direita queimaram uma bruxa de pano com o rosto da feminista norte-americana Judith Butler em protesto contra sua participação em um seminário sobre democracia no Sesc Pompeia, em São Paulo. Tempos estranhos, estes.

Branco vivo, de Antonio Lino, saiu da gráfica em agosto. O livro retrata um pouco do Brasil, dos brasileiros e das brasilidades encontradas pelos doutores e doutoras — sobretudo cubanos — que aderiram ao programa Mais Médicos e se espalharam pelos rincões do país com a missão de levar atendimento de saúde a pessoas que muitas vezes jamais haviam passado por uma consulta. A edição ganhou as imagens do renomado fotógrafo Araquém Alcântara. Ficou uma maravilha que só. Se você ainda não viu, tem que ver.

Setembro e outubro foram meses de livros de intervenção no debate público. Além de Uberização, lançamos com a Autonomia Literária Empresas alemãs no Brasil: o 7×1 na economia, de Christian Russau, que traça o longo histórico de espoliação do capitalismo germânico no país, começando com as parcerias entre Dom Pedro II e a siderúrgica Krupp, passando pela colaboração da Volkswagen com o regime militar e pelos acordos nucleares brasileiros com ex-oficiais nazistas, até chegar no negócio de seguros e resseguros da Usina Hidrelétrica de Belo Monte: um golaço jornalístico essencial para compreendermos o quanto ainda somos colônia.

Outro título que veio ao mundo neste período foi Cuba no século XXI: dilemas da revolução, organizado por Fabio Luis Barbosa dos Santos, Joana Salém Vasconcelos e Fabiana Rita Dessotti, com prefácio de Frei Betto. O volume que produzimos sobre os impasses contemporâneos do socialismo caribenho foi muito especial pra nós, pois, pela primeira vez, financiamos um livro inteiramente com a colaboração antecipada dos leitores. Quatrocentas pessoas confiaram nos autores e na Editora Elefante e contribuíram com a arrecadação de fundos pela internet comprando exemplares em pré-venda. Em troca, puderam escolher a capa. Muito obrigado, gente!

Como agradecimento adicional, antecipamos uma grande novidade: em 2018 traduziremos e publicaremos uma obra importantíssima sobre um período triste da cultura cubana conhecido como quinquenio gris, marcado pela perseguição a artistas, intelectuais e homossexuais. Assim, acreditamos colaborar para uma avaliação mais aprofundada sobre esse grande episódio da história latino-americana que foi e que é a Revolução Cubana, e que completará sessenta anos em 2019.

Novembro assistiu à inauguração da coleção de antropologia da Editora Elefante, Fundo & Forma, com o lançamento de Do corpo ao pó: crônicas da territorialidade kaiowá e guarani nas adjacências da morte, de Bruno Martins Morais, vencedor do Prêmio Anpocs de Teses Acadêmicas 2016. Triste e, ao mesmo tempo, belo, o livro procura compreender como os Kaiowá e Guarani lidam com a morte no contexto de violência extrema do Mato Grosso do Sul. A edição ganhou as fotos de dois jornalistas que acompanham de perto a luta dos povos brasileiros pelo seu pedaço de chão contra o avanço do agronegócio e do desmatamento: Lunaé Parracho e Ruy Sposati. O lançamento em São Paulo contou com um show do Ruspô, que arrancou lágrimas da gente com suas canções sobre a injustiça que assola o país.

Em dezembro, mais uma vez, fechamos o ano com poesia. Publicamos os versos de estreia de Lucas Bonolo, compilados na edição dupla e infinita de Gaia primavera: o amor vai à guerra, um grito pela rebeldia contra o absurdo que se tornou viver.

Também fizemos uma festinha de final de ano. Fomos recebidos pelo Presidenta Bar & Espaço Cultural, na Rua Augusta, e botamos pra quebrar com o pocket show de Eva Figueiredo, Paulo de Tarso L. Brandão e Guilherme Kafé, com a discotecagem do DJ Renato Brandão e com as latinidade do Cumbia Calavera. Foi incrível! Gostamos da coisa. Ano que vem, se chegar vivos até o final de 2018, teremos mais momentos de confraternização.

Enfim, estamos exaustos, exaustos, exaustos. Porém, tremendamente felizes. Em 2017, apesar de todos os pesares, nossa manada cresceu um bocado — e isso é maravilhoso! Nunca tivemos tantos elefantes caminhando conosco pelas trilhas tortuosas e cheias de armadilhas do pequeno mundo editorial brasileiro.

Em meio a condições injustas nas livrarias, dificuldades de distribuição, custos crescentes de gráfica, papel e Correios, continuamos produzindo livros bonitos que precisam ser lidos, e não apenas vendidos para gerar lucro. Seguiremos assim. Mas, claro, não faremos nada sozinhos. Queremos ser cada vez mais interdependentes de você. Venha conosco!

As novidades, você já sabe onde encontrá-las: em nosso saite e blogue, sempre atualizados (www.editoraelefante.com.br), ou em nossas páginas de Facebook (www.fb.com/editoraelefante) e Instagram (www.instagram.com/editoraelefante).

Obrigadíssimo, mais uma vez. Sairemos para um merecido descanso entre 20 de dezembro e 10 de janeiro. Nos vemos em breve.

Muitos beijos e abraços.

Dos paquidermes,

Bianca Oliveira
João Peres
Leonardo Garzaro
& Tadeu Breda

A coragem e a sensibilidade
dos Kaiowá contra o fim do mundo

Por Tatiane Klein
Especial para Editora Elefante

 

O antropólogo Bruno Martins Morais era advogado quando decidiu fazer um estudo sobre os atores contrários às demarcações das terras dos Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva no Mato Grosso do Sul. Seus planos mudaram radicalmente ao chegar às retomadas, áreas ocupadas pelos Guarani na luta pela recuperação de seus tekoha, “lugar em que se pode ser”.

Atento aos discursos sobre a violência e as mortes causadas por ataques de pistoleiros, empresas de segurança privada e latifundiários, Bruno se dedicou a compreender a perspectiva dos Kaiowá sobre os mortos — e sobre a morte — no contexto de luta pela terra. O resultado é o livro Do corpo ao pó: crônicas da territorialidade kaiowá e guarani nas adjacências da morte, premiado pela Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs) e lançado em novembro pela Editora Elefante.

Nesta entrevista, Bruno refaz as perguntas que direcionaram seu trabalho de campo e relembra as lições que tirou da convivência com os Kaiowá: “Meu livro é uma denúncia, mas uma denúncia esperançosa. Demonstra que é trágico o que os Kaiowá estão vivendo, mas que precisamos de muito pouco para refundar o mundo: coragem e sensibilidade”.

Confira:

De início você queria pesquisar empresas de segurança privada, fazendeiros, sindicatos rurais, e acabou nas retomadas de terras. Qual é o diferencial da pesquisa que você acabou fazendo?

Fazer uma etnografia do sistema de segurança do agronegócio — que eu chamava de sistema de vigilância territorial — seria interessante, se fosse possível e se a conjuntura tivesse ajudado, pois possibilitaria descrever um olhar a partir do ponto de vista dos fazendeiros e de quem gere esse sistema de segurança. Por outro lado, creio que teria produzido uma narrativa permeada de fontes e de uma linguagem policial: uma linguagem de Estado.

Essa é a grande diferença. O que eu tento mostrar em Do corpo ao pó é que existem registros diferentes de linguagem para as coisas, e existem palavras que são pontos de encontro semântico desses registros. O meu trabalho foi tentar explorar esse outro lado: a capacidade que os índios têm de multiplicar sentidos nas palavras que a sociedade nacional e o Estado usam — e a linguagem que eu usava como advogado nos processos.

A palavra que foi o ponto de desenvolvimento do meu trabalho foi “violência” — uma palavra a que o Estado dá um certo sentido. Então eu passei a falar com os Kaiowá sobre violência, sobre assassinatos, e eles abriam a palavra “violência” em um leque de outras coisas, fundadas em uma descrição pormenorizada do corpo — e que levava do corpo à terra. Como dizem os Kaiowá no livro, eles têm uma palavra (ombojera) que remete à capacidade de desdobrar uma coisa sobre ela mesma. “Violência” foi se desdobrando até que se fizesse nesse livro, que traz, no limite, uma descrição do cosmos, da vida, do mundo, do surgimento e do fim das coisas segundo ouvi dos kaiowá e guarani.

A maior onda recente de solidariedade aos Guarani Kaiowá foi motivada por uma carta da comunidade de Pyelito Kue/Mbarakay, interpretada como intenção de um “suicídio coletivo”. Eles diziam que queriam ser mortos e enterrados ali mesmo, junto de seus antepassados, um discurso que não é incomum em outras falas públicas dos Guarani Kaiowá. Como você lê estas falas?

Os discursos kaiowá sobre o corpo e sobre a terra são abundantes e estão em todos os registros, desde os registros coloniais. Eu mostro no capítulo 3 do meu livro que toda etnografia kaiowá gasta um tempo para dizer coisas em relação ao corpo e à morte. Há uma série de mitos e narrativas de rezas que mostram os guarani rezando sobre os ossos, e talvez essa palavra não seja apropriada, mas existe uma fixação dos Guarani em superar a morte. Esse é o fundamento dos termos akandire ou aguyje, que é conseguir superar a morte com o corpo intacto. Isso está presente tanto nos discursos xamânicos como nos discursos que os guarani fazem para o Estado.

Eu fico pensando o quão restrito é o ponto de vista da sociedade nacional quando escuta esses discursos e os traduz de maneira direta, como [se fossem] agenciamentos da lei para demarcar cemitérios como áreas tradicionais. Isso não é nem verdade do ponto de vista dos técnicos do Estado, porque o relatório [de identificação e delimitação de terras indígenas] da Funai [Fundação Nacional do Índio] leva isso em consideração de maneira muito marginal. Me parece uma apropriação muito direta, porque não está atenta à distância entre os dois discursos, ao equívoco entre eles: projeta sobre os Kaiowá uma linguagem de Estado, jurídica, que não está pressuposta desde o ponto de vista deles.

Tekoha é talvez um dos conceitos guarani que mais tem viajado, chegando até ao Teatro Oficina, na disputa por uma área na cidade de São Paulo. Entre os Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva nós sabemos também que esse termo tem ganhado novos sentidos.

Os equívocos são de dupla mão. Talvez a gente tenha muito mais dificuldade de entender alguns deles. Um bom exemplo disso é o termo tekoha, que entra para a nossa linguagem como um sinônimo de aldeia, de terra indígena, de reivindicação de terra. Eu, como advogado, na hora de listar os acampamentos, uso a palavra tekoha, traduzindo como uma reivindicação de terras. No livro, essa foi uma das palavras que mais me deu trabalho. A tradução mais clássica do termo é “o lugar onde se pode ser”, mas na agência dos indígenas ela está relacionada com todas as possibilidades de ser sobre esse território — que são muitas e estão relacionadas com os antepassados, mas também com o futuro. A palavra tekoharã [usada para se referir aos acampamentos de retomadas] tem uma partícula de futuro (-) que identifica uma potência de tekoha, um lugar em que você poderia ser.

Nesse sentido, a maneira como os textos mais clássicos da literatura traduziram tekoha me parece muito pobre. Existe uma discussão sobre se no tekoha há uma família ou muitas famílias, e me parece que esse não é um problema guarani, mas um problema de quem vai fazer o laudo de identificação [e delimitação da terra indígena]. É um problema do Estado. E o que o Estado precisa tentar produzir são traduções menos equivocadas, que ressoem mais entre um registro e outro.

Quando fomos escutar esses discursos, nós — e digo isso como antropólogo — também traduzimos mal. Se você olhar a literatura [sobre povos] guarani de maneira geral, [verá que] só muito recentemente começaram a se fazer trabalhos a respeito do corpo guarani, o que me parece muito estranho, já que os Guarani estão o tempo todo se referindo ao corpo. O meu trabalho é uma tentativa de abrir caminho para o tema da corporalidade. Nisso, eu faço tributo às contribuições dos antropólogos que trabalharam no Mato Grosso do Sul e que já estavam estudando o tema do corpo kaiowá, como Levi Marques Pereira, Diógenes Cariaga e Lauriene Seraguza.

No livro você opõe a forma de territorialização de que os Guarani Kaiowá foram objeto, com a criação de pequenas reservas indígenas no início do século XX, a uma forma própria de estar no território, que tem seu eixo no corpo. Gostaria que você falasse sobre essa proposta.

A minha proposta de entendimento da territorialização do Estado e do que isso produziu, os efeitos do cerco sobre o corpo guarani, é a de que isso foi compreendido pelos Guarani a partir de uma ideia de disciplina do corpo. Na reserva, o Estado é um ente disciplinador, e quando ele territorializa — para usar um termo de João Pacheco de Oliveira —, isso não é só um projeto de delimitação de fronteiras, mas de disciplinamento do corpo: um projeto de colonização no seu sentido mais lato.

A expressão máxima disso é a cerca, a concretização da territorialização do Estado. Esse projeto do Estado é processado no corpo kaiowá a partir de várias entidades: é agenciado pelas escolas, pelos postos de saúde e também pelo capitão e pelo cabeçante — uma figura importante nas reservas kaiowá, que agencia o trabalho [dos demais]. Quando você conversa com os Kaiowá que voltaram do trabalho nos canaviais, ou com os Kaiowá que estão na reserva, as pessoas dizem: é como se meu corpo não me pertencesse, ou como se meu corpo produzisse duplos, imagens dele mesmo. O corpo vai produzindo imagens e ao mesmo tempo vai se esvaziando.

E como isso acontece nas áreas retomadas, como o Apyka’i, da Dona Damiana, em que você concentrou a pesquisa?

A cerca tem um sentido ambivalente. Se na reserva ela está cercando os índios, na retomada ela está cercando a fazenda: está tentando proteger a fazenda da disposição inabalável de Dona Damiana em reaver a terra que ela considera como dela. Falo disso no capítulo 2. A reivindicação de Dona Damiana está inscrita nos corpos das pessoas: na memória do corpo dela mesma, da família dela e das pessoas que viveram naquele espaço. Nesse sentido, o acampamento de retomada é uma inversão e uma negação da disciplina do cerco das reservas. O acampamento de retomada é o espaço que busca impor uma disciplina nova sobre o corpo. Isso está expresso nos ritos funerários, como possibilidade de controlar, no limite, a própria morte. Se você não consegue autodeterminar a própria vida, que pelo menos você não abra mão da morte — ou da morte dos seus.

Em 2014, a Comissão Nacional da Verdade reconheceu os processos de remoção forçada dos Guarani Kaiowá para reservas como graves violações de direitos humanos. No livro, você indica que esse cerco não é um processo acabado, dizendo que “o sarambi não foi concluído com a concentração dos indígenas nas reservas”…

Sarambi, antes de ser um conceito historiográfico, é uma palavra em língua guarani que quer dizer “espalhamento” ou “esparramo”. Ela foi agenciada em contextos políticos e foi usada na literatura etnológica e na historiografia para definir um período de tempo — aquele que se sucedeu a frente de ocupação da abertura das fazendas, em que as famílias kaiowá se esfacelaram, espalhando-se pelas territorialidades precárias onde conseguiram se estabelecer. Ela não só identifica esse período de tempo, mas o processo que eles viveram nesse período: a experiência de desarranjo dos laços de parentesco. A partir de um momento da história, isso passa a estar diretamente relacionado com o loteamento das terras do Mato Grosso do Sul e da produção de um cerco às terras kaiowá. A palavra sarambi denomina um processo, e é importante reconhecer isso para poder reconhecer que os efeitos dessa colonização estão aí até os dias de hoje, desarranjando e rearranjando as relações de parentesco e de sociabilidade kaiowá. E [reconhecer também] que uma política de reparação tem que passar pela restituição dos territórios — mas, para além disso, precisa se desenvolver enquanto processo, não com compensações pontuais.

Você inicia o livro afirmando que encontrou nas retomadas uma forma de lidar com os mortos que contradizia os estudos sobre povos falantes de línguas do tronco Tupi — como são os Guarani Kaiowá e Guarani Ñandeva.

Estava de certa maneira consolidado que os povos tupi, quando morria alguém, colocavam fogo nas casas e saíam daquele lugar, para fundar um outro lugar. Mas as etnografias, mesmo as dos anos 1960 e anteriores, descrevem na verdade dinâmicas muito mais complexas de lidar com a morte e com o morto. Existem muitas referências, no Xingu, entre os Tupi no Mato Grosso, enterrando os mortos no centro das aldeias ou enterrando os mortos dentro de casa. O que posso dizer é que, a partir do momento em que você pisa em uma retomada kaiowá, como por exemplo o Apyka’i, as pessoas te levam para conhecer os cemitérios. Se eles faziam isso antes, não sei. Os mortos estão presentes nos discursos das pessoas, nas rezas, nas cartas que a [organização política dos Kaiowá do Mato Grosso do Sul] Aty Guasu emite, de uma maneira muito direta. Existe uma possibilidade de localização do morto no terreno, e uma identificação do morto como protetor do lugar. A própria retomada é um processo de acordar essas pessoas que estão dormindo. No capítulo 4 do livro há uma descrição muito bonita de um rezador sobre como é feita uma retomada: ele canta, às vezes por um mês, um ano, e, quando entra na retomada, ele vem cantando. Os mortos que estão enterrados lá despertam e vêm dançar com ele. Ele fala assim: “Meu povo está chegando! Que felicidade, meu povo está chegando!”. 

É comum ouvir também dos Guarani, em suas falas públicas, que eles lutam por meio de seus cantos e rezas. Como é que esses cantos são agenciados no movimento de “furar o cerco” das fazendas?

O meu trabalho traz um pouco desses agenciamentos e tem até a tradução de um canto, mas não descreve o canto como uma tecnologia. O que me parece é que o canto, de maneiras que talvez para a gente sejam inacessíveis em primeiro momento, têm todo o tipo de função: desde tirar piolho, espantar formiga da roça, até imobilizar os inimigos. Então, dá para entender os cantos como uma técnica ou tecnologia kaiowá de agenciamento do mundo. É muito comum estar nas manifestações, por exemplo, e os Kaiowá irem rezar e pedir para as pessoas saírem da frente, porque o canto tem uma direção no espaço.

No livro está descrito um canto que se chama Piraguai, do Sr. Olímpio, e que ele usaria não só para limpar a roça, mas também como canto de guerra, uma armadilha para os inimigos. E os cantos têm uma grande importância no trato com os mortos. Se o rito funerário é um processo de localização do morto na terra, o canto atua como o instrumento desse processo de localização. Primeiro, você reza o corpo do morto no momento do enterro; depois você tem o velório da cruz durante sete dias — isso está etnografado no livro também. E pelo que me descreveram os Kaiowá, você vai rezar aquele túmulo pelo o resto da vida. 

O que você aprendeu enquanto esteve pesquisando entre os Kaiowá?

O livro traz uma série de elaborações kaiowá e guarani sobre o nosso potencial — o meu, o seu, o da sociedade nacional — de destruição do mundo. Quando os Guarani Kaiowá estão falando de morte e de violência, eles estão falando disso. Eles estão falando: “Vocês têm uma tecnologia de produção de corpos vazios!”, e a produção desses corpos vazios está criando problemas nessa terra, desmesurando o cosmos, misturando coisas que não deviam estar misturadas: os vivos e os mortos. Esse é um livro cheio de impressões negativas dessa nossa tecnologia. Inclusive, de conclusões muito trágicas: nos capítulos finais, eles descrevem esse mundo não como um mundo que está acabando, mas que já acabou. 

Ao mesmo tempo, o livro traz uma série de demonstrações dos Kaiowá sobre como existem tecnologias para refundar esse mundo — e sobre como refundar o mundo é mais fácil do que destruí-lo. A lição do Apyka’i é que você precisa de muito pouca coisa para refundar uma aldeia: você precisa de um pouquinho de água, um pedacinho de terra, três árvores. Nesse sentido, meu livro é uma denúncia. Mas uma denúncia esperançosa, porque demonstra que é trágico o que os Kaiowá estão vivendo, mas que precisamos de muito pouco para a gente refundar o mundo: é preciso coragem e sensibilidade. São essas as duas lições que eles me dão.

Muitas vezes a imagem usada pelos Guarani Kaiowá para os cantos e rezas é de fazer a terra florescer ou embelezar a terra…

E a imagem do fim do mundo deles é uma terra onde as flores não mais florescem. No fim do livro eles falam disso. O problema de morrer muita gente e de criar corpos vazios é que você para de ter reza, para de enfeitar o mundo, e então as flores não mais florescem. Isso é de uma sensibilidade muito grande, e é um diagnóstico muito preciso da época que a gente está vivendo.

 

Tatiane Klein é jornalista e doutoranda em Antropologia Social na Universidade de São Paulo (USP)

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